
• Mesa 1
:: Eduardo Goldenberg
& Luiz Antonio Simas

Entrevista com João Bosco (parte 4)

EG: Que noite!
JB: Estávamos numa mesa como essa aqui... Conversando... Eu acho que a mulher do Torquato tinha um parentesco com o Ismael que eu não vou dizer a vocês porque eu não me lembro mais! Mas tem um parentesco com o Ismael. E foi essa a noite que eu passei na casa do Torquato Neto, na Ladeira dos Tabajaras! Que eu nem sabia o que era o Rio de Janeiro, mas toda vez que eu vejo Tabajaras... Pode ser num filme de Hollywood, pode ser no Casseta e Planeta, pra mim... Tabajaras vem essa turma toda junto!
EG: E você foi parar lá por conta desse amigo de Niterói?
RF: 1967, né?
JB: 67 pra 68... Final de 68...
EG: E quando você e Vinícius fizeram “Rosa dos Ventos”?
JB: Fiz em outra época em que ele foi pra Ouro Preto...
EG: Volta lá pro encontro com o Vinícius lá em Ouro Preto , o primeiro samba...
JB: Então... Ele letrou o samba, eu voltei pra república com o Paulinho Pavanelli...
EG: E você louco, né?
JB: Já bêbado e ali, naquele dia, eu tive uma certeza na vida... A minha vida ia ser música... Ali! Naquele dia! Naquela noite!
EG: Você lembra o dia exato, João?
JB: Não... não lembro...
EG: Mês?
JB: Abril, maio... O inverno tava se anunciando... Eram noites um pouquinho mais frescas, mais frias... ainda não era inverno... abril, maio... de 67! Ali, naquele dia, eu descobri que meu negócio era música. E aí eu comecei a ouvir música diferente. Eu comecei a olhar pra música não mais como aquele sujeito que não se programa, que não tem vínculo, que não tem responsabilidade com a música, eu comecei a olhar música diferente. Então eu comecei a ouvir música e já queria saber quem era, quando foi gravada, quem é que cantou, que tom que estava, eu comecei a olhar música com outro propósito! Acho que a partir dali eu virei compositor, virei músico! E coincidentemente parei de ir à escola! Então... Perdi o ano! Repeti o ano... Mas o Vinícius, outras vezes, me aconselhou: “João, que é isso? Vai à escola! Não vai pro Rio agora não... Vai fazer o quê no Rio? Tá aqui com seus amigos, numa cidade maravilhosa...”.
RF: Você tocou naquele teatro municipal de Ouro Preto?
JB: Várias vezes! Várias vezes... E vi o Vinícius lá várias vezes... Com o Toquinho, se apresentando lá, com a Marília Medalha... Eu conheci o Victor Assis Brasil...
RF: Quantos músicos do Rio iam se apresentar lá?
JB: Olha... eu conheci Victor Assis Brasil lá. Na noite em que eu conheci o Victor eu até me aproximei dele, eu já tava envolvido com música lá... Aí eu disse pra ele... “Um dia, no Rio de Janeiro, eu vou te procurar e te convidar pra você fazer alguma coisa...” e ele... “Pô, com o maior prazer!”... E ele nem sabia o que eu fazia! E no disco “Linha de Passe” eu cumpri a minha promessa! E ele também! Ela toca comigo uma canção chamada “Mara”, minha e do Aldir... Ele toca, só eu e ele... O solo é dele, o contracanto é dele... Isso em 78. Você vê que a minha promessa se cumpriu! E a dele também!
S: E então você seguiu o que Vinicius tinha proposto e só veio pro Rio depois de se formar?
JB: Só vim depois de 72. Mas vinha todas as férias, mas só mesmo depois de formado é que eu vim... Rapaz... Eu não colei grau!!!!!
S: É mesmo? Terminou o curso e...
JB: Eu terminei o curso... Na verdade eu colei grau mas não busquei diploma! É isso! Eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6 e casei no dia 9! Na verdade eu casei oficialmente no Rio, no dia 9, eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6, e casei aqui oficialmente com um Juiz e pronto... Não voltei mais! Não busquei nada, não fui pra república, não busquei meus livros, meus cadernos...
RF: Sua foto tá lá!
JB: Eu sei! Eu sei! Eu tinha uma mala muito especial com as minhas coisas... Então eu busquei essa mala, ficava debaixo da minha cama, como todo bom mineiro, onde guardam os tesouros... O Scliar foi meu padrinho aqui...
RF: E a sua mulher é de lá?
JB: A Angela nasceu no Rio e foi criada em Ponte Nova. A família da mãe era carioca, e a própria mãe era cantora lírica.
RF: E quando você veio pro Rio foi morar aonde?
JB: Eu fui morar na Pacheco Leão... Trouxe os móveis de Minas, de Ouro Preto... Quem fez os meus móveis foi um carpinteiro de Ouro Preto... Com o primeiro adiantamento que eu recebi da RCA Victor quando eu assinei o contrato. Então com esse dinheiro eu comprei os móveis que eu precisava e vivi com esse dinheiro um ano aqui no Rio de Janeiro enquanto eu não tinha trabalho.
LB: E o encontro com o Aldir?
JB: Meu encontro com o Aldir foi mais ou menos no final de 69. No final de 69 eu conheci um sujeito de Petrópolis, chamado Pedro Lourenço Gomes. O conheci em Ouro Preto porque ele era amigo de um amigo meu de Ponte Nova, chamado Roberto Lopes, que gostava de cantar e que cantava de uma forma muito peculiar, muito macia, muito cool, e eu me lembro que uma das canções que ele cantava – e fazia isso muito bem! – era uma canção do Johnny Alf. “Ah, somente um dia longe dos teus olhos...” (cantando) Ele cantava isso muito bonito. E o Roberto era amigo desse Pedro Lourenço, de Petrópolis. E eu o conheci em Ouro Preto junto com o Roberto, e ele me viu tocando e já fazendo aquelas coisas, em 69, eu já fazia umas músicas meio malucas, tipo “Agnus Sei”, essas coisas... Aí ele disse assim: “Rapaz eu tenho um amigo meu lá no Rio que quando ouvir essas músicas... eu não sei, cara, eu acho que ele vai botar umas letras que você vai gostar aí...”, e eu falei “É?” e ele “É! Inclusive ele é um amigo com quem eu toda segunda-feira estudo com ele, nós lemos livros juntos e estudamos filosofia e psicanálise, um rapaz chamado Aldir Blanc”, e eu “Legal... fala pra ele...”. Aí eu fiquei pensando naquele nome, já tinha ouvido aquele nome em algum lugar... Aí fuçando a minha memória, que naquela época funcionava muito bem (ri), eu me lembrei dos festivais universitários! Lá na escola de Minas havia um jornal chamado “O Martelo” e eu escrevia sobre música, e eu já tinha falado dele mas não falado religiosamente, sabe?, mas já tinha passado por aquele nome. Aí um belo dia em tô em Ouro Preto e me liga o Pedro e me diz “Nós vamos praí”... E eu disse “Nós quem?” e ele “Eu, Aldir, o Paulo Emílio, o Eduardo Andrade”... que era percussionista, fotógrafo, tocava com o Gonzaguinha e trabalhou muito tempo na TV Manchete. “Quando é que vocês chegam?”, “Depois de amanhã”. Aí eu passo na casa do Ivan Marquetti, que é a casa que o Scliar tinha com ele... A empregada disse “Seu Ivan viajou...”, “Pô, mas o Ivan não falou nada...”. Aí eu encontro um amigo nosso, estudante, que disse... “É... o bicho tá pegando aí...” E era o negócio da ditadura! “Os caras em Belo Horizonte estão atrás de algumas pessoas, o Ivan tá na lista, fulano tá, mas se eu fosse você eu dava um pinote, porque vocês estão sempre juntos...”... Aí eu lembrei da comitiva que vinha do Rio! Aí deixei uns amigos avisados em Ouro Preto. “Vou me mandar”, “Pra onde?”, “Pra casa de mamãe!”. Eu era um garoto, um jovem, a maldade era do mesmo tamanho da inocência, daí fui pra casa de mamãe, se alguém quisesse me achar era só ir pra casa de mamãe porque eu tava lá! Aí deixei, em Ouro Preto, o pessoal avisado que eu ia pra casa de mamãe. Depois eu perguntei pro pessoal da república se eles já tinham chegado em Ouro Preto e eles já tinham chegado e estavam indo pra Ponte Nova. Daí eles foram pra minha casa em Ponte Nova. Foi a primeira vez que eu encontrei o Aldir! E nesse dia minha mãe fez aquela macarronada né?, que dá pra vinte pessoas, foi quando eu fiquei conhecendo o Aldir, que já tinha levado um gravador, o Pedro tava presente e ficou “toca aquela, toca aquela!” e eu toquei o “Agnus Sei”, o “Bala com Bala” e o “Angra” que não tinham letra. Aí o Aldir botou no gravador as três e levou. E começou a me escrever do Rio de Janeiro e a gente se correspondia por cartas e ele me falando dos livros todos que eram na verdade dicas que ele me passava de literatura sem querer dizer “leia isso”, ele dizia “olha, eu li isso...” e aí citava as passagens e eu comecei a procurar os livros pra estar junto dele, pra entender o que ele queria me dizer... Foram as três primeiras músicas: “Agnus Sei”, “Bala com Bala” e “Angra”. Isso foi no princípio de 70.
EG: João... e de quando foi aquele disco de bolso do Pasquim?
JB: 72. Nós já tínhamos trinta música nessa época! Porque aí eu comecei a mandar as fitas pra ele, 70, 71, e ele mandava as letras...
EG: Então a parceria se estabeleceu assim mesmo?
JB: É! Fita pra cá e letra pra lá!
LB: Quando voltou o resultado das primeiras letras, qual foi sua reação pra essas três primeiras músicas?
JB: Cara, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a sonoridade das letras...
EG: As músicas já tinham nome?
RF: Você que deu o nome?
JB: Não! Não! Ele deu os nomes! “Agnus Sei” vinha assim... “Ê andá pa Catarandá que
Deus tudo vê...” (cantando)... Aí eu dizia... “Gente! Era mais ou menos o que eu fazia tocando!!!!”... Então o sujeito já tava dentro da sonoridade, não era só em letrar, ocupar os espaços da melodia, ele olhava dentro e sentia o seu ritmo, o que você pensava quando tocava aquilo... Entendeu? Isso foi a coisa que mais me impressionou... Você vê a letra de “Bala com Bala”... “A sala cala / E o jornal prepara / Quem está na sala / Com pipoca e bala...” (cantando)... Tudo lá... pó-pó-pó... O ritmo! Tudo era rítmico... Mas o Aldir é um letrista extraordinário também em função do ritmo que ele tem também... Porque o Aldir foi o primeiro percussionista aqui no Rio de Janeiro! Tocava tumbadora comigo! Primeiro nós tínhamos um duo, eu e ele. Depois uma banda. E ele tocava percussão. E vou lhe dizer uma coisa que ninguém desconfia! No primeiro show que nós fizemos aqui no Rio, no Colégio São José, eu toquei duas músicas do Ray Charles e o Aldir na tumbadora!!!! Eram “Tell me the truth” e “I´ve got a woman”. Fazia parte do nosso roteiro!
LB: Excelente!
JB: (rindo muito) Primeiro show, no Colégio São José! Que o nosso baterista... Não tem lá uma escadaria?
EG: Tem!
JB: Então! O nosso baterista desceu aquela escadaria de Fusca... Eu não sei como é que ele faz, mas ele tomou um porre tão grande que ele errou o caminho e desceu as escadarias do São José de carro! Foi aí que nós entendemos a primeira piração de músico que a gente viu explícita! O nosso batera desceu as escadas de carro!
RF: Isso foi quando, João?
JB: Isso em 73, 74 no máximo. Não passava disso aí... Mais pra 73. E em 73 eu gravei meu primeiro longplay pela RCA Victor cujos arranjos são do Luizinho Eça e do Rogério Duprat aonde tem o “Bala com Bala”.
LB: A Elis gravou você em 72, né?
JB: Ela grava “Bala com Bala”...
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