
• Mesa 1
:: Eduardo Goldenberg
& Luiz Antonio Simas

Entrevista com João Bosco (parte 3)

EG: Paulinho da Viola!
S: “Tudo se Transformou”...
JB: Então sempre que eu toco esse samba, me vem o Paulinho, de quem eu tenho a honra de ser amigo pra caramba e durante muitos anos eu fui meio até que cambono, uma espécie de assistente (Simas ri) do Paulinho, porque eu carregava aquela cesta de chuteira, pro futebol... Eu ficava à beira do campo e dizia “Olha, você tem que cair mais pra direita... desse jeito você não vai receber bola, não... você tem que voltar”... Eu dava instruções pra ele... Imagina você! E ele tinha um Fusca... E quando acabava o futebol a gente ficava naquele sopão que tinha lá no Portelão, tomava a sopa, tomava aquela cerveja... e quase todo sábado era isso aí. E agora, recentemente, eu disse pô “pára de ficar pensando nisso e vai ver o que é que é”... Aí eu fui pegar o “Tudo se Transformou”... Então tá lá... (cantando) “Violão até um dia quando houver mais alegria eu procuro por você, cansei de derramar inutilmente em tuas cordas as desilusões deste meu viver, ela declarou...”... A segunda parte de “Chega de Saudade” passa por ali! Você vê como é que é engraçado isso... Na verdade a música pra mim é uma espécie de carretel de linha, porque você vai puxando e uma coisa vem depois da outra... Ou seja... Depois de um, vem dois, vem três, vem quatro, vem cinco, vem seis... Não adianta pular pro oito, que antes do oito tem sete... Entendeu? Não tem essa de escutar isso! Eu não escuto isso! Eu escuto uma coisa que me leva à outra e que me leva à outra e que me leva à outra!!! Eu acho que “Tudo se Transformou” dialoga com “Chega de Saudade”, o Paulinho estabelece um diálogo com Vinícius e Tom, pois se um samba diz “ela declarou recentemente que ao meu lado não tem mais prazer” o outro diz “vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser”...
LB: Pensando assim foi que você misturou Noel Rosa com Beatles?
JB: Exatamente! Fita Amarela com Eleanor Rigby...
LB: Ou como fez com o Expresso 2222, do Gil, com a música do ET!
JB: Já misturei Bethoven com Tico-Tico no Fubá! (cantarola) Aí entra no choro... (cantarola)... Pô! Tico-Tico e Bethoven! E não é gratuito! Existiu mesmo... É uma coisa feita que chama a outra... Não sei por que cargas d´água, mas eu acho que música é um pouco assim... Fazendo um corte, rapidinho, eu li uma série de entrevistas do Chico Buarque pra esse show recente, onde ele fala isso! Que o roteiro do show foi construído com uma música puxando a outra! Eu acho que na verdade todo roteiro, todo repertório, toda a maneira de se fazer música vem de uma coisa puxando a outra! É assim que eu penso. Então não existe, formalmente, um critério pra se educar musicalmente. Não! É uma coisa puxando a outra!
EG: Mas vamos voltar lá pra Ouro Preto. Você falou que começou a compor sem saber que estava compondo... Era por isso? Você ficava tocando música dos outros e de repente tava compondo?
JB: É porque quando eu procurei o Vinicius de Moraes em 67...
EG: Você que o procurou? Ele tava lá?
JB: Eu que procurei, ele ia sempre lá. Eu entrei pra escola em 67. Por isso é que eu digo que eu perdi um ano, junto com o nosso amigo Gilberto... Porque eu saí em 72. Na verdade o meu curso de engenharia, que era de cinco anos durou seis! E eu devo esse primeiro ano que eu perdi na escola – eu perdi por freqüência! – eu devo ao Vinicius. E é uma dívida que eu não vou conseguir pagar! Foi o ano em que eu mais aprendi na vida! Foi ano que eu não fui à escola! Eu procurei o Vinicius na pousada aonde ele ficava hospedado, “Pouso do Chico Rei”. E comigo foi o rapaz que era meu colega de república e que tocava no quarteto vocal que eu tinha chamado “Quarteto de Ouro Preto”, aonde nós já tocávamos música popular brasileira e eu fazia os arranjos vocais sem conhecer nada de música, uma nota de música... Aliás não conhecia e não conheço. E peço desculpas publicamente por isso, porque isso não é nenhuma vantagem! Isso é um complexo que eu tenho... Não aprendi música, não consegui aprender música porque meu saco estourou! Eu devia, ao invés de estar estudando engenharia, eu devia estar estudando música! Por isso é que eu acho que as escolas têm que ter nos seus currículos educação musical! Porque se o sujeito revela ali o talento dele, ou a sina de ser músico, é dali que ele parte. Como eu não tive isso, eu fui estudar engenharia. Não reclamo também! Porque na engenharia também eu vi coisas muito bacanas e que estão muito ligadas à música, principalmente através dos gregos, dos filósofos, dos matemáticos e que estão dentro da engenharia, porque a maioria dos cálculos, dos matemáticos, desses enunciados, foram feitos por gente biruta igual qualquer tipo de músico louco que tem por aí, tudo feito na base da inspiração, da intuição. Mas me diga uma coisa... Como é que um garoto, de Minas Gerais, com seus 21 anos, bate na porta do Vinícius do Moraes – que era tudo no Brasil, Vinicius reinventava a letra da música brasileira (e eu digo reinventava porque eu acho que quem inventou a letra na música brasileira foi Noel Rosa e depois o Vinícius a reinventou, mas o Noel encabeçando, na década de 30!) – então como é que você bate na porta de um cara desses pra mostrar música, sendo que ele se chama Vinicius de Moraes? E por que o Vinícius de Moraes? Porque Vinícius de Moraes era o cara que escrevia poesias muito parecidas com a pessoa dele. Toda a poética de Vinícius, toda a generosidade que você encontra na poesia de Vinícius, toda a vontade de fazer amigos, de encontrar o amor... tava nele! Ele era aquilo! Então eu bati na porta procurando um cara que eu tinha certeza que ia me receber de braços abertos...
EG: E foi o que ele fez?
JB: Foi o que ele fez! De braços abertos e com uma garrafa de uísque. E ele disse: “Você faz o quê?”. E eu disse “Entrei pra escola esse ano...”... “Ah, é?...”, e eu com o violão do lado... “Eu tenho um quarteto vocal, esse rapaz aqui toca comigo...”, o nome dessa rapaz é Paulo César Pavanelli – quase Carpegiani mas não é!!!! (todo mundo ri muito). Só pra lembrar que 81 foi o ano que não terminou para os outros times! E o Vinícius: “Ah, você tem um coral? O que é que vocês tocam?”. Eu disse e ele disse “Mas esse repertório é muito bom...”, e inclusive tinha coisas dele. “Toca alguma coisa aí!”... Aí eu toquei um samba que eu tinha feito... “Pô, mas esse samba é bom, toca outro...”. Eu fui e toquei outro. “Pô, mas esse também é bom... toca outro!”. Aí eu vi que tinha acabado. Eu era um compositor de dois sambas! Eu nunca estive atento ao lance de compor, eu tava tocando a música de todo mundo... só depois vinha a minha...
EG: E essas duas deram samba?
JB: Essas duas deram samba! Uma ele letrou, que foi o “Samba do Pouso”, a primeira, que tá gravada no songbook dele, eu gravei com “Os Cariocas”...
EG: Foi a primeira música que você fez na vida?
JB: A primeira música que eu fiz na vida...
S: E foi ele que se dispôs a letrar?
JB: Naquela hora!
EG: Dentro do quarto?
JB: Ali! Na pousada! Meu primeiro parceiro... O segundo quem letrou foi um cara que eu conheci aqui no Rio de Janeiro, chamado Torquato Neto. Porque eu venho ao Rio, nas férias, e porque aí o Vinícius resolve me adotar!, e eu via o meu nome pipocando naquelas notinhas... O Vinícius dava notas sobre mim nos jornais, no “Jornal do Brasil”... E havia o “Correio da Manhã”, e outros jornais, “O Globo”, e o Vinícius sempre falando de mim. Isso era uma coisa que eu não vou conseguir nunca devolver ao Vinícius... (visivelmente emocionado)... entendeu? Toda a generosidade que ele deu, não só a mim, mas como a muitas pessoas do meu tempo, e acho que extensivamente ao público do Brasil que, pô... que tem por ele... e não sou eu que digo isso... que tem a experiência que esse público tem de reencontrá-lo através de especiais, de filmes biográficos e tudo, e revelarem a sua admiração por uma pessoa tão bonita e tão maravilhosa feito o Vinícius. Mas ele resolveu me adotar... E ele e o pintor Carlos Scliar, que é meu padrinho de casamento...
RF: Que tinha casa lá, né? (em Ouro Preto)
JB: Tinha casa lá e eu freqüentava muito a casa...
RF: Casa maravilhosa...
JB: Exatamente... aquele chalé... que era do Scliar e do pintor Ivan Marquetti, que faleceu há pouco tempo e foi grande amigo meu esse tempo todo da minha vida, um grande amigo, um grande pintor. E o Vinícius adorava o Ivan, tinha um carinho muito grande pelo Ivan. Mas os dois começaram a me convidar pra passar as férias escolares, da escola de Minas, no Rio! Então na época de julho e na época que vai de fevereiro a fevereiro, eu passava no Rio de Janeiro. Numa dessas que eu vim, entre janeiro e fevereiro... eu vou te dizer até a época... foi a época que o Chico Buarque lançou um disco aonde ele tem uma foto segurando um violão na Lagoa... E que tem a música “Realejo”... (disco de 1967, “Chico Buarque de Hollanda)
LB: Preta a capa?
JB: Preta! Eu vou te dizer porque é que eu me lembro desse disco... Quando eu estava na casa do Torquato, o Chico ligou pra ele naquela madrugada. E conversaram sobre música. Aí o Torquato faz uma menção a esse disco, que tava ouvindo, que tava curtindo o disco, e esse disco nunca mais me saiu da cabeça e por dois motivos... O Chico ser o que é, compositor maravilhoso, genial e único e o Torquato por ser um pensador, e poeta, e representante de um pensamento que é singular e que é fundamental inclusive no Tropicalismo. Eu fui parar na casa do Torquato por causa de um sujeito que morava em Niterói, e que mora até hoje, chamado Chico Enói e que ninguém sabe quem é, ninguém conhece, que não conseguiu impor o seu repertório, a sua obra. Ele mora em Niterói até hoje, e não conseguiu mostrar o seu trabalho, mas que tinha e tem talento para estar aí, hoje, fazendo a sua música... Que a música tem muito disso, a poesia tem disso, a literatura tem disso...
RF: Oportunidade, né?
JB: Enfim... ele não teve oportunidade. Mas quem me levou ao Torquato foi o Chico Enói. Portanto nesse samba nós temos parceria... Eu e o Chico Enói. Aquela parceria que a gente entra porque a gente é amigo... aquela parceria de antigamente!
S: Tem que entrar!
JB: Tem que entrar... É a parceria que eu mais sinto falta! Porque é a parceria que vai a qualquer lugar, a qualquer hora...
RF: Como o Donato foi teu parceiro por causa daquelas frases no dia da despedida de vocês...
JB: Exatamente! Né? Se não fosse aquele negócio aquela música não existiria... O Chico Enói, se não me leva à casa do Torquato, eu não teria ido, eu não teria feito um samba com ele chamado “Fique Sabendo”...
EG: Que foi o segundo samba que você mostrou pro Vinícius...
JB: Não. O segundo samba que eu mostrei pro Vinícius, e que ele letrou, chama-se “Rosa dos Ventos”. O Torquato letrou esse samba naquela noite... Agora eu vou te dizer... Naquela noite quem é que estava na casa do Torquato? O telefonema do Chico Buarque, que não é pouca coisa e eu presenciei... (Rodrigo ri) Um pianista de São Paulo, que é um gênio, chamado Laércio de Freitas, conhecido pela alcunha de “Tio”, tenho a honra de ser amigo do Laércio... Sempre que eu vou a São Paulo nos encontramos, e todo show meu em São Paulo ele vai, e quando eu estou em São Paulo, aonde quer que ele esteja tocando eu vou assistir... Estava um sujeito chamado Jards Anet da Silva mais conhecido...
RF: Macalé!
JB: ... como Macalé... Deitado num canapé... (todo mundo ri)... Devia ter tomado uns birinights, tava ali sonhando com os anjos, tirou uma soneca... Conheci o Macalé dormindo! Não é qualquer pessoa que é apresentada a uma outra dormindo! Eu conheci o Macalé dormindo, tive esse prazer... E um músico, numa mesa, que estava com um terno marrom, mas um marrom muito especial, mais pro brown do que pro marrom, marrom cheio de guéri-guéri, uma camisa rosa, uma gravata verde, uma meia rosa, um sapato clássico marrom, um anel muito bonito nos dedos... Esse sujeito era conhecido como Ismael Silva! (Simas gargalha)
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