
• Mesa 1
:: Eduardo Goldenberg
& Luiz Antonio Simas

Entrevista com João Bosco (parte 2)

RF: O título foi o Aldir que deu?
JB: Foi. Foi composta numa época em que a gente se via muito pouco. Mesmo a gente à distância, a gente nunca deixou de ser irmão, porque nós falávamos de uma pessoa que ambos tínhamos um carinho muito grande...
EG: Vamos voltar pra sua infância. Você consegue dizer quando foi seu primeiro contato com música? Ou a primeira vez em que você teve certeza de que era isso que você iria fazer?
JB: Não. Na verdade eu sempre estive junto da música. Eu nunca pensei nisso... Porque pensar nisso implicaria em você ter um projeto de vida profissional com a música. E eu nunca tive isso. E naquela época não existia isso! Não existia a profissão de músico! Você dizia pra alguém aquela célebre frase: “Eu faço música”. E esse alguém: “E você trabalha em quê?”. Então a minha irmã era pianista. A minha mãe era violinista. A minha avó era bandolinista.
EG: Então se fazia música na sua casa?
JB: Se fazia muita música... Tinha sarau... Minha irmã era muito boa pianista...
EG: Tinha piano também na sua casa?
JB: Tinha... Isso é um detalhe que é impressionante... Toda casa tinha piano. Esse negócio da dificuldade de ter piano, isso é uma coisa dos tempos modernos, da economia recente... Na minha história, em Ponte Nova, que é uma cidade topograficamente cheia de subidas e descidas, como Ouro Preto, eu me lembro de subir e descer ruas com as crianças estudando escalas de piano, principalmente as moças. Fazia parte da educação a aula de piano. E não era uma pessoa de classe média, classe média alta! Qualquer casa tinha um piano! Na minha casa tinha piano! Nós éramos de uma família relativamente pobre, meu pai a essa altura da minha infância já tava deixando os negócios e mexendo com seguro de vida, ele era securitário, e minha mãe era professora de escola primária. Nós éramos dez irmãos, e nós vestíamos, comíamos e morávamos, entendeu? E na minha casa tinha piano!
EG: Depois de você vieram mais quatro filhos?
JB: É, mais quatro... Eram dez filhos! Mas deixa eu contar uma coisa... A minha irmã tava sempre envolvida com outros cantores, músicos, ela às vezes tocava no conjunto da cidade, aonde havia um crooner, e ela cantava também! Ela chegou a cantar muito bem, inclusive. Então na minha casa tinha sempre alguém ensaiando com ela no piano, eu criança já. Uma das coisas que eu mais me recordo dela tocando piano não era bem o piano, mas era um anel que ela tinha de uma pedra, tipo uma ametista, que ficava folgada na armação do metal, e ela ficava balançando. E à medida que ela tocava aquilo produzia um som, um ritmo, com os dedos. A pedra chocando com o metal dava um som, e aquilo me chamava muito a atenção. Engraçado, isso. Mas eu cresci no meio dessa audição diversificada. Vinha gente de música popular, vinha seresteiro e eu, garoto, também tinha os meus amigos de rua e eu acredito que eu vim misturado com a música, numa diversidade muito grande.
S: Alguém na família tocava violão?
JB: Não. A minha irmã é que ganhou um violão, que foi esse violão que sobrou pra mim. Ela comprou esse violão... Era todo esverdeado, aqueles violões que você compra em loja que você compra bacalhau, peça de roupa (todo mundo ri), língua de sogra, e o violão fica pendurado no teto amarrado com um barbante... Então ela comprou esse violão e ela acabou percebendo que esse violão ficava muito tempo comigo. Aí ela fez de conta que não sentia mais falta do violão e o violão acabou ficando em tempo integral comigo... Foi aí que eu comecei a tocar...
EG: Que idade você tinha aí?
JB: Eu devia ter 10 pra 11 anos... Mas a minha vida musical, no princípio, era muito heterogênea, sabe? Eu tinha uns amigos, jovens como eu, que gostavam do início do que tava acontecendo na música da juventude, e eu tinha um amigo meu que tinha uma discoteca do Elvis Presley, imensa, e a gente ficava ouvindo os discos do Elvis Presley... E você pode até achar engraçado... Mas você sabe que eu sou flamenguista por causa do Elvis Presley, né? Eu comecei a torcer pro Flamengo por causa do Dida, que tinha um topete muito parecido com o do Elvis. Quando eu vi a figurinha do Dida...
S: E o Dida... alagoano!
JB: ... eu falei... O Elvis joga no Flamengo!!!!!
(todos rolando de rir)
JB: Vou torcer pra esse time! Só depois é que eu fui saber que o Dida era alagoano... Fiquei vendo o Dida escondido na Gávea, sem querer perturbar o cara, só vendo o cara de longe... Porque esse cara é o início, pra mim, de tudo... O fato de eu torcer pro Flamengo vem daí! Vem do topete dele... Que é um topete de Elvis Presley! Elvis joga no Flamengo! Era essa a sensação!
EG: Bela história, hein!
S: Magnífica!
LB: Melhor que Elvis não morreu é Elvis jogava no Flamengo!
JB: Aí eu comecei a misturar Dilermando Reis com Elvis Presley, misturava isso com Noel, com Caymmi... Meu pai, naquela época, fazia umas viagens ao Rio pra comprar material pra loja do meu avô. Então ele vinha comprar os tecidos, uma coisa assim. Mas ele, goleiro de futebol – e futebol tem uma relação com a música popular muito forte, inabalável - , eu acho que ele vinha aqui pra Lapa... Ele nunca me falou isso... Mas onde é que ele aprendia a cantar aquelas músicas que ele cantava e que eu às vezes acompanhava no violão ainda garoto? Ele cantava muito samba do Noel. Onde é que ele aprendia? Eu nunca vi ele ouvir rádio em casa... Eu acho que quando ele vinha ao Rio, ele ficava aqui...
S: Escapava pra velha Lapa...
JB: Então a minha formação musical era muito solta, livre, diversa, e não havia um critério. Pelo menos não havia um critério cultural. Ninguém baixava uma norma pra dizer o que prestava e o que não prestava. Na verdade essa norma era ditada pelo meu sentimento, por aquilo que meu coração mandava! Então eu acho que dentro dessa mistura toda, na audição, e eu dou muito valor a isso, há essa maneira solta de estar ligado à música... Por exemplo, é muito difícil você dizer, numa música feito “Tiro de Misericórdia” que ali não tem um pouco de... Por exemplo... essas coisas que vêm porque querem... independente da sua vontade... porque a música tem muito isso... vem porque quer! Né? E você não controla isso. E é muito difícil você especificar determinadas influências, ou pelo menos aonde é que elas estão. Mas eu acho que é muito difícil em certas músicas, por exemplo, que eu andei fazendo, dizer “aqui não tem o Little Richards”... Eu acho importante isso...
RF: Tinha vitrola na sua casa em Ponte Nova?
JB: Tinha rádio, no início... E depois, duas irmãs mais velhas, que eram muito ligadas em música... A minha irmã pianista, que é viva até hoje, que é a mais velha, e que tem um coral lá em Ponte Nova, o coral aonde a minha mãe inclusive participa, e uma outra irmã, já falecida, que também gostava muito de música... Elas começaram a trabalhar na Receita Federal, tinham um salário bom, então permitiu que elas comprassem uma vitrola pa casa... Eu achava, inclusive, naquelas vitrolas, que o instrumento – e eu só fui saber isso muito tempo depois – baixo elétrico só existia nas vitrolas “high fidelity”, e não no rádio! Eu achava que quem tocava aquele instrumento era a vitrola! Porque o baixo ele precisava de uma estrutura pra se expressar! Como o rádio era uma coisa pequena, tinha ondas que não permitiam uma tradução com fidelidade do que se registrava, eu achava que o baixo só existia nas grandes vitrolas! Então eu, quando ia ouvir música na casa dos outros, que eu via que a vitrola era pequenininha, daquele tipo que você tira a tampa, aí eu dizia “não quero, essa vitrola não toca baixo”... Isso era muito engraçado, cara! Eu só fui descobrir que o baixo era um instrumento mesmo muito tempo depois! Muito engraçado. E eu tive uma vitrola dessa de tampa... Em Ouro Preto era a minha vitrola. E eu sofria muito. Porque eu já tinha a consciência de que o baixo existia, mas que eu tinha que imaginá-lo, ali era impossível ouvir...
RF: Você não começou com acordeon, não?
JB: Não... Minha irmã ticava acordeon... E tinha muito professor de acordeon... Mas é que o violão tinha foto, tinha pose, se fazia mais publicidade...
EG: E depois do violão verde... o segundo... você comprou?
JB: Não... O segundo era um violão que eu tinha na república em Ouro Preto, na Sinagoga, que quando eu entrei pra essa república esse violão já existia lá há muito tempo, e eles não davam a menor bola pra esse violão... Esse violão, inclusive, tinha uma marca de ferro elétrico no verso, porque neguinho botava o ferro ali... Daí eu peguei esse violão pra mim...
LB: Em Ouro Preto você já tocava violão legal?
JB: Em Ouro Preto realmente eu comecei a tocar violão.
EG: Aí você tinha o quê? 18 anos?
JB: Eu fui pra lá em 62, tinha 16...
LB: Mas você já tocava bem?
JB: Eu tocava em Ponte Nova, parei de tocar, fui pra Ouro Preto e lá o violão ressurgiu. Mas aí ressurgiu intensamente, eu comecei a conviver com os músicos da escola, com os colegas...
RF: Você fazia qual engenharia?
JB: Civil.
EG: E você começou a compor lá em Ouro Preto?
JB: Comecei a compor lá sem perceber que estava compondo...
EG: Pegava o violão e...
JB: ... e ficava tocando música dos outros... Que é o que eu faço até hoje! Eu nunca pego o violão pra compor, eu pego o violão pra tocar música de alguém. Às vezes eu cismo com músicas... Ontem quando eu falei com você eu cismei com “Tudo se Transformou”... Porque eu sempre que toco “Chega de Saudade”, quando chego naquela parte (cantando) “mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca...”, eu sempre me lembro do Paulinho da Viola... E isso há muito tempo! Eu sou canceriano, sou mineiro, sou preguiçoso... Eu demoro, demoro a pegar. Aliás, escuta isso! Eu até dei um computador pra minha mãe um dia desses... Não me deixa não voltar ao assunto!
RF: Tá!
JB: Mas eu dei um computador pra ela – ela queria aprender!, minha mãe já está com 90 anos, e isso deve ter uns 5 anos... – achei que seria bom pra ela, aprendendo ou não. Aí um dia eu ligo pra ela e digo assim “Mamãe, e aí?”. Aí falamos de uma série de coisas, e tal... E eu digo assim: “E o computador?”. “Ah! Tá aqui, meu filho... De vez em quando ele pega, de vez em quando ele não pega...”. (todo mundo ri muito) Eu fiquei com aquilo na cabeça... Aí eu conversei com alguém e contei “Falei com minha mãe, rapaz, sobre o computador, e ela diz que tem dia que ele pega, tem dia que ele não pega... você não acha isso interessante, em se tratando de computador, uma coisa de ponta, de tecnologia, pegar e não pegar?”. E o cara “Não, João, mas faz sentido! Antigamente o rádio pegava e não pegava!”... Eu tava falando sobre...
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