------| Boteco do Tulípio |------
 






















• Mesa 1
:: Eduardo Goldenberg
:: Luiz Antonio Simas

• Mesa 2
:: Ademir Assunção
:: Zema Ribeiro
:: Chacal

• Mesa 3

:: André Sant'Anna
:: Dema Jorge
:: Paloma Kliss

• Mesa 4
:: Gerald Iensen
:: Luana Vignon
:: Pierre Masato

• Mesa 5
:: Andréa Del Fuego
:: Douglas Diegues
:: Luis Manoel Siqueira

• Mesa 6
:: Fernanda Prats
:: Thereza Dantas
:: Yara Camillo
 


• Mesa 1
:: Eduardo Goldenberg & Luiz Antonio Simas


No dia 17 de janeiro de 2007, eu e o Luiz Antonio Simas, acompanhados dos amigos Rodrigo Ferrari e Leo Boechat, partimos em direção à Gávea, para o BAR DO SEU PIRES, na intenção de encontrarmos o João Bosco para um bate-papo desses que não se publicam mais. Enormes. Sem cortes.

Esse foi, particularmente, regado por uma garrafa de Red Label, algumas muitas garrafas de cerveja e muito violão.

Tulípio não tava lá, tremendo vacilão! Mas a gente trouxe o João pra cá, pra gente reviver tudo outra vez..





Rodrigo Ferrari: Então, estamos aqui, 17 de janeiro de 2007, no Bar do Pires, na Gávea, com João Bosco... Começar a entrevista perguntando seu nome, o nome de seus pais e a rua em que você nasceu...

João Bosco: Bom... Meu nome é João Bosco de Freitas Mucci. Eu sou o sexto filho de Daniel Mucci, libanês, casado com uma mineira... libanês já falecido!... e ... morreu no dia anterior da morte, também, de Vinicius de Moraes... Eu me lembro... acompanhando meu pai até o cemitério... e no trajeto alguém me disse que o Vinicius de Moraes tinha falecido... E casado com uma mineira, de uma cidade também perto de Ponte Nova chamada Barra Longa, Maria Auxiliadora de Freitas Mucci. Eu digo que eu sou o sexto filho homem porque numa família aonde o chefe da família, vamos assim dizer, é libanês, é árabe, teve cinco filhas mulheres, ele já era um árabe completamente desacreditado na praça... (todo mundo ri)... Porque vocês sabem que na cultura do árabe a mulher tem uma importância relativa... Quer dizer... O homem tem a sua importância e a mulher vem a seguir, é uma sociedade que mantém ainda, um pouco, dessas leis prioritárias... E então quando eu nasci foi um motivo de muita celebração, de muita alegria, de muitos presentes. Minha mãe conta que a minha casa ficou repleta de amigos e principalmente das pessoas libanesas e afins, que moravam em Ponte Nova, cuja colônia árabe era... até hoje... não sei por quê... era muito expressiva. A cidade era toda demarcada por lojas, negócios, bancos com nome das pessoas que compunham essa colônia árabe, joalherias, enfim... Todo aquele comércio que faz parte da tradição desse mundo dos negócios árabes. E então foi um dia muito especial o meu nascimento, por causa disso... Meu pai voltou a erguer a cabeça, a andar empinado, com um certo orgulho porque tinha produzido um filho homem! Teve que esperar e amargar muito por isso!

RF: Que dia foi?

JB: Isso foi no dia 13 de julho de 1946. O meu pai era goleiro, um talento do coração!, e ajudava meu avô nos negócios por obrigação. Mas eles falam que meu pai – e eu só vi o meu pai jogando no gol naqueles jogos de veteranos... - ... mas eles dizem que meu pai realmente foi um grande goleiro, e a cidade toda comenta isso, existem diplomas e medalhas conferidas a ele pela sua habilidade no gol... E o que eu me lembro de meu pai, já jogando com os veteranos, era que ele tinha os dedos das mãos todos tortos, todos quebrados e os dentes foram todos quebrados também pelas chuteiras dos atacantes... E meu pai foi um goleiro muito disputado... Ele jogou a vida toda, praticamente, no Pontenovense Futebol Clube, que na época tinha um time excelente, cujas cores eram vermelho e branco, e depois também teve que passar uma temporada em Juiz de Fora, estudando por obrigação do meu avô, aonde ele jogou aonde ele estudava, no time, mas teve convite pra jogar nos melhores times de Juiz de Fora como Tupi etc e foi amigo de grandes goleiros no Rio de Janeiro, principalmente Castilho, que era goleiro do Fluminense, e que era amigo dele, e meu pai era um tricolor fanático, né?, doente... E talvez isso explique porque é que eu comecei torcendo pro Flamengo... Mas o meu pai contava que jogava muito com os times do Rio de Janeiro e eu cheguei a ver muitos times do Rio de Janeiro, ainda criança, jogando em Ponte Nova, os principais times do Rio de Janeiro na época, que eram muitos... não era só Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo... Mas havia o América, eu vi Pompéia jogar, havia Olaria, havia Canto do Rio que eram times excelentes, né? São Cristóvão... e que faziam campanhas belíssimas... Bangu... Eu vi Zózimo jogar também em Ponte Nova... Então eu tenho uma lembrança, assim, da minha infância aonde a presença da colônia árabe é muito grande e também dos grandes times cariocas e de seus jogadores não menos famosos! Isso é uma coisa que tem um destaque na minha formação de infância!

RF: Quando você nasceu seu pai tinha quantos anos?

JB: Eu nasci em 46... Meu pai tava no auge de sua carreira, jogando bola... Meu pai morreu com cerca de 65 anos... E já se vão aí da data da morte dele... 25 anos... Mais um pouco... 30... Eu tive cinco irmãs, mas lá em casa é mais ou menos de dois em dois... Entendeu? De dois em dois anos... Meu pai era muito regular nessa questão da prole! (todo mundo ri) Se você vem numa escala descendente, começando com a irmã mais velha, você vai me pegar com 60 anos, mas ela deve ter 70, 71, a outra tem 69, a outra 67...

Simas: Uma escadinha!

JB: É... Uma escadinha... Mas eu falo isso porque o Aldir, por exemplo, ele não viu o meu pai jogar. Mas ele sentiu o meu pai jogar, que é a coisa do poeta... E o Aldir tinha uma ligação muito forte com o meu pai, uma coisa que não dá pra explicar – e nem precisa! Nós fizemos uma canção, uma vez, quando ficamos muito tempo sem nos ver, mas ainda trabalhando juntos, me lembro que ele fez uma canção – à distância – aonde ele fala do meu pai, é uma canção dedicada ao meu pai, e nessa canção ele fala do meu pai, das peculiaridades do meu pai, daquilo que ele conheceu intimamente do meu pai e aonde ele cita, inclusive, as suas proezas como goleiro... Meu pai devia ter contado histórias pra ele... Mas a ligação do Aldir com meu pai é uma coisa muito impressionante... Eu tenho uma foto do meu pai, em casa... Uma foto dessas grandes, tipo 18 por 24, uma moldura, mas ela fica na estante, entre os livros, e pra você se deparar com ela você tem que saber que ela está ali pra você olhar pra ela. Essa estante está num ambiente aonde você normalmente é atraído por outros quadros, por outras coisas que compõem, os objetos desse lugar... Mas eu me lembro de uma noite, o Aldir na minha casa, já recentemente, um ano atrás, uma coisa assim... A gente já tinha bebido todas, a gente tava realmente já... eu colocando música pra gente ouvir no som... E de repente ele se depara com a foto do meu pai, e eu do lado dele senti esse momento e ele se comoveu, entende? Aquilo foi uma coisa muito emocionante... E somente duas pessoas viram aquilo, né? Eu e ele! Eu e o Aldir! E meu pai, com certeza, deve ter sentido isso... Mas essa ligação dele, do Aldir, com o meu pai, nos torna muito mais do que parceiros, nos torna praticamente pessoas da mesma família, quer dizer, a gente já era mais do que isso antes, entendeu? Mas esse é um dado que eu acho que é importante...

Eduardo Goldenberg: Essa canção foi gravada?

JB: Essa canção foi gravada por mim e pelo João Donato, no songbook do Donato. Essa canção foi uma coisa impressionante! Eu tava na casa do João Donato, que é uma pessoa maravilhosa, um compositor admirável e de uma simplicidade muito grande não só naquilo que faz mas no trato com as outras pessoas, no caráter, entende? É um sujeito muito gracioso, muito dado, sabe? E eu tinha passado um dia e uma noite com o Donato e a gente tava lá tomando aqueles birinights, aquelas maluquices do Donato, que ele gosta e eu acompanho, e na hora em que eu fui embora... A gente tava fazendo músicas juntos! Aí na hora de ir embora ele foi me levar até a porta e na hora de despedir ele cantou duas frases de uma melodia como quem se despede de alguém com carinho, né? Um músico despedindo do outro, dizendo boa-noite, né?! E ele me cantou duas melodias de uma frase, ele fez... (João cantarola)... Eu fui embora e aquilo me saltou, tinha alguma coisa ali naquelas duas frases tão simples, ditas de uma maneira tão amistosa, tão amorosa, sabe? Um tempo depois eu peguei no violão e desenvolvi isso aí... E acabei fazendo uma música... E essa música eu mostrei pro Donato, e ele adorou! E ele disse: “Temos que colocar uma letra”. E eu já não via o Aldir já há muito tempo... Mas eu falei: “Tem algum empecilho pro Aldir fazer essa letra?”, e ele: “Claro que não! Eu adoro o Aldir”. Daí eu mandei a música pro Aldir. Aí ele fez...

EG: E você já tinha composto pensando no teu pai?

JB: Não! Absolutamente... (pensando) Meu pai sempre dizia uma frase que era “enquanto Deus me der vida e saúde...” e aí ele completava a frase... “eu vou ao seu casamento”...

RF: Era um bordão!

JB: Era um bordão! Só que toda vez que eu fui a missa com o meu pai ele nunca entrou na igreja!!!!! (todo mundo ri muito) Ele sempre ficava do lado de fora, ali, porque a igreja dava pra uma praça, então ele não entrava e ficava ali e ficava com os amigos conversando...

Leo Boechat: Mas ele era libanês e tinha outra religião?

JB: Não! Meu pai era libanês católico. Mas no título! E essas coisas eu aprendi cada vez mais com ele... Porque essa coisa da religião é uma coisa que tá dentro de você, não é uma coisa que tá no templo... Tá dentro! Eu acho que vontade e fé se misturam muito! Tem um livro do João Ubaldo Ribeiro, que é um escritor por quem eu tenho uma admiração profunda e eu tenho muito orgulho de ser muito amigo dele, aonde ele diz: “A vontade pode”. E isso é uma frase que se você for pensar, ela tem uma importância muito grande. A vontade pode. Quem quer, consegue! O que é a fé? A fé é uma vontade litúrgica! A fé é uma vontade! Quando você acredita numa coisa você parte pra cima daquilo, seja com um instrumento, seja com uma bola nos pés, seja com a caneta, com a máquina fotográfica, seja com uma régua de cálculo, com uma máquina de somar, qualquer coisa! E meu pai dizia sempre isso... Ele tinha uma vontade de estar junto das pessoas o maior tempo possível... Mas com respeito... “Enquanto Ele (frisando) me conceder!” Mas acontece que eu nunca vi ele rezando e nunca vi ele entrar na igreja. A gente ficava do lado de fora conversando, ele com os motoristas de táxi, com os amigos, ele gostava de um baralho também, ficavam falando do jogo do dia anterior...

S: Mas não era muito apegado a essa coisa material?

JB: Não, ele não tinha apego nenhum! Meu pai nunca pensou no dia seguinte. Nunca pensou no dia seguinte. Nunca. Toda vez que ele descia em Ouro Preto de ônibus, aonde eu estudava, eu me encontrava com ele no ponto de ônibus no trajeto em frente à escola, ele saltava ali, eu ficava ali com ele, às vezes tinha uma banca de um quitandeiro aonde ele vendia coisas, inclusive laranja! E ele às vezes descascava as laranjas, chupava duas ou três laranjas, batia um papo, pegava o ônibus seguinte e ia embora!!!!! E isso era o nosso encontro. O Aldir inclusive fala disso na letra. Na verdade o Aldir é o melhor contador de histórias que eu já conheci na minha vida. Uma mesma história que eu tenha vivido com ele, eu vou contar pra você e ela não vai ter a menor graça. Mas quando ele conta, é a mesma história, é uma coisa muito espirituosa, muito engraçada, você se diverte ouvindo porque ele é um grande narrador de histórias... Então essa letra está recheada de informações que eu passei pra ele... E ele coloca isso tudo lá, mas daquele jeito, como o grande contador de histórias que ele é.

EG: Mas volta aí pro Donato... Você perguntou se podia mandar a letra pro Aldir...

JB: Então! Aí eu mandei a música pro Aldir sem falar nada...

RF: Sem nem pensar em nada?

JB: Nada! E o Aldir então mandou essa letra...

EG: Chama como a canção?

JB: Chama “Nossas últimas viagens”, e fala da última vez que o Aldir foi a Ponte Nova, viu o meu pai... Meu pai já falecido... Então ele fala das últimas viagens dele a Minas e do meu pai aqui pra Terra!

EG: Foi composta quando?

JB: Ah... Eu não tenho essa memória, mas tem muitos anos... No songbook do Donato eu gravei com ele. Ele toca piano, eu toco violão e canto. E no meu songbook, produzido pelo Almir Chediak, quem canta isso é o Dominguinhos. E o Dominguinhos abre essa música dizendo da emoção que ele teve de cantar essa canção e diz assim: “O que eu queria na minha vida e não fiz, era uma música pro meu pai como vocês fizeram...”.

Continua na Próxima Página >>>